Roda Viva – David Lynch

Roda Viva – David Lynch – 03/11/2008

Programa exibido em 22 de maio de 2012

O norte-americano David Lynch é um dos diretores mais controvertidos do cinema contemporâneo. Seus filmes têm personagens estranhos – muitas vezes bizarros, e contam histórias que nem sempre têm um fim tradicional, mas que transformaram-no em um dos cineastas mais importantes da atualidade. Lynch também arruma tempo para fotografar, pintar, compor e escrever. Em agosto, esteve no Brasil para divulgar a sua experiência com a meditação transcendental e a importância disso em seu processo criativo. David Lynch concorreu ao Oscar de melhor diretor duas vezes, pelos filmes O Homem-Elefante e Veludo Azul. Em 1997, produziu a série de TV Twin Peaks e em 2001 ganhou o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes, pelo filme Cidade dos Sonhos.

Confira, aqui, a entrevista:

A revolucionária igreja “em pobreza e sem poder”

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A necessidade de voltar para a Igreja dos pobres. Artigo de Jon Sobrino

Voltemos à Igreja de Dom Romero e de Ellacuría. A deterioração da Igreja depois de Puebla é inocultável.

A análise é do teólogo jesuíta salvadorenho, de origem espanhola, Jon Sobrino, professor da Universidade Centro-Americana, de San Salvador. O artigo foi publicado no sítio Reflexión y Liberación, 22-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, via Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o texto.

Ver a Igreja “em pobreza e sem poder” nunca teve muito êxito, e isso não se tornou algo central nem sequer no Vaticano II, tão importante e decisivo em muitas outras coisas. Isso ocorreu, sim, em Medellín, e em Puebla ainda pôde se sair bem perante graves manobras contrárias.

Mas, há três décadas, a deterioração é inocultável. Comblin diz: “Depois de Puebla, começou a Igreja do silêncio. A Igreja começou a não ter nada a dizer”. E, embora Aparecida tenha significado um pequeno freio, na Igreja ainda não aconteceu aquele “reverter a história” que Ellacuría exigia para curar uma sociedade gravemente doente. A conclusão é que é preciso voltar para uma Igreja dos pobres e trabalhar por isso. Em El Salvador, depois de Dom Romero, a deterioração é clara; daí a necessidade de recomposição eclesial.

O Vaticano II

João XXIII desejava que o Concílio reconhecesse que a Igreja é “uma Igreja dos pobres”. O cardeal Lercaro proferiu um discurso emotivo e lúcido sobre isso no fim da primeira sessão em 1962, e Dom Himmer pediu com toda a clareza: “É preciso reservar aos pobres o primeiro lugar na Igreja”.

Mas, ainda em outubro de 1963, o bispo Gerlier se queixava da pouca importância que estava sendo dada aos pobres no esquema sobre a Igreja. Os bispos latino-americanos mais lúcidos também captaram logo que o tema estava muito distante da imensa maioria do Concílio, a questão era muito distante para eles, embora sempre se mantivesse um grupo que queria seguir a inspiração de João XXIII, entre eles um bom número de latino-americanos. Eles se reuniram confidencialmente e de forma regular na Domus Mariae, para tratar do tema “a pobreza da Igreja”.

Em 16 de novembro de 1965, poucos dias antes do encerramento do Concílio, cerca de 40 padres conciliares celebraram uma eucaristia nas catacumbas de Santa Domitila. Pediram para “serem fiéis ao espírito de Jesus” e, ao terminar a celebração, assinaram o que chamaram de “o pacto das catacumbas”.

O “pacto” é um desafio para os “irmãos no episcopado” para levar uma “vida de pobreza” e ser uma Igreja “servidora e pobre”, como João XXIII a queria. Os signatários – incluindo muitos latino-americanos e brasileiros, aos quais depois se uniram outros – se comprometiam a viver em pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou privilégios de poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. O texto teria uma forte influência na teologia da libertação que despontaria poucos anos depois.

Um dos propulsores do pacto foi Dom Helder Câmara. Em 2009, celebramos o centenário do seu nascimento, em 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, Ceará, no Nordeste do Brasil.

Lendo hoje o pacto, chama a atenção que, no fundamental, ele trata de um único assunto: a pobreza. Mas, por ser o eixo em torno do qual tudo girava – e não, por exemplo, a administração dos sacramentos –, o pacto das catacumbas produziu frutos importantes em Medellín e, pouco a pouco, em outras Igrejas. Historicamente, levou à luta pela justiça e pela libertação. Eclesialmente, à opção pelos pobres. Teologicamente, ao Deus dos pobres. Tudo isso chegou a El Salvador, e Dom Romero o pôs para produzir e o abençoou, junto com a novidades salvadorenha dos mártires.

O Monsenhor conheceu em Puebla àqueles bispos do pacto e de Medellín, e voltou muito contente. “Eu me lembro de uma das primeiras noites da reunião de Puebla, quando conheci a Dom Helder Câmara e a Dom Proaño e ao cardeal Arns do Brasil. Quando eles souberam que eu era o arcebispo de San Salvador, me diziam: ‘Você tem muito a nos contar. Saiba que o conhecemos e que esse povo é admirável, e que continuem sendo fiéis ao Evangelho como têm sido até agora'”. É evidente a admiração que sentiam pelo Monsenhor, e a que o Monsenhor sentia por eles.

Atualmente, também há “pactos”. Pedro Casaldáliga é o seu porta-voz mais eloquente. Em sua circular de 2009, ele escreve: “pacto”.

Dom Helder Câmara era um dos principais animadores do grupo profético. Hoje, nós, na turbulenta conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais não podemos renunciar de modo algum.

Continuamos rejeitando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e do consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da humanidade. E continuaremos rejeitando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos órgãos mundiais (ONU, FMI, Banco Mundial, OMC…). Comprometemo-nos a viver uma “ecologia profunda e integral”, propiciando uma política agrário-agrícola alternativa à política predatória do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos das transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de “alta intensidade”.

Como Igreja, queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em que cremos, o Abbá de Jesus, não pode ser de modo algum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazer do nosso Deus o único Deus verdadeiro. “Meu Deus, deixa-me ver a Deus?”.

Com todo o respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo inter-religioso não só é possível, mas também é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta.

Exigiremos, corrigindo séculos de discriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da humanidade.

Continuaremos fazendo com que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: “Não seja assim entre vós” (Mt 21, 26). Que a autoridade seja serviço. O Vaticano deixará de ser Estado, e o papa não será mais chefe de Estado. A Cúria deverá ser profundamente reformada, e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada.

A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas da justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anúncio, de denúncia, de consolação.

Jon Sobrino
UCA de San Salvador

Un Chien Andalou & L’Âge d’Or – Luis Buñuel e Salvador Dalí

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LUIS BUÑUEL

Se a realidade com toda a sua rotina, por vezes, é entediante e domesticadora, Buñuel e Dalí nos convidam a vermos a vida com a sensibilidade onírica e irracional de Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz, 1928) e L’Âge d’Or (A Idade do Ouro, 1930), dois clássicos do surrealismo no cinema. O desalojamento do poder constituído manifesto pelos autores,  faz com que realizem severas críticas ao status quo e ao clericalismo de então, que são válidas ainda hoje! Um soco no estômago!

SALVADOR DALÍ

Assista e confira… se ousar!

A Gravata

 The Necktie by Jean-François Lévesque, Canadá, 2008, 12min17s.

A Gravata! Porque cada um tem a sua…

Um filme especial de Jean-François Lévesque, 2008, Canadá, 12min17s. Uma mistura de marionetes e animação desenhada à mão, a gravata é a história de Valentin e sua busca para encontrar significado em sua vida. Preso em um beco sem saída, ele se esqueceu de tudo sobre as coisas que costumavam enchê-lo de alegria. Os anos passam, eo tédio substitui todas as suas aspirações e esperanças para o futuro. É apenas em seu 40º aniversário, quando ele reencontra um velho acordeão escondido nas profundezas do seu armário, que ele recupera sua paixão pela vida.

Confira!

A ideia em ação

O conhecimento e a fé bem comportada não podem nada contra a força da ação, nem proporcionam mudanças verdadeiras. Não podem substituir os exercícios que precisam ser realizados para que qualquer ideia seja transformada em ação. Em primeiro lugar vem a ação! Isso quer dizer exercício, exercício, exercício!

 FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE


Eles e o Cinema

No meu romance pessoal, fui salvo duas vezes: pela escola e pelo cinema. A escola, em primeiro lugar, me salvou de um destino de aldeão no qual nunca teria tido acesso nem à vida nem à cultura de adulto que acabariam sendo as minhas. O cinema entrou na minha vida, no coração de uma vida triste e angustiada, como algo que logo soube seria a minha tábua de salvação.

[…]

O cinema sempre é jovem quando retornando ao gesto que o fundou, às suas origens, inventa um novo começo. Quando alguém segura uma câmera e se confronta ao real por um minuto, num quadro fixo, com total atenção a tudo que vai advir, prendendo a respiração diante daquilo que há de sagrado e de irremediável no fato de que uma câmera capte a fragilidade de um instante, com o sentimento grave de que esse minuto é único e jamais se repetirá no curso do tempo, o cinema renasce para ele como o primeiro dia em que uma câmera operou.

[…]

Quando nos situamos no que há de originário no ato cinematográfico, somos sempre o primeiro cineasta, de Louis Lumière a um jovem dos dias de hoje. Rodar um plano é colocar-se no coração do ato cinematográfico, descobrir que toda potência do cinema está no ato bruto de captar um minuto do mundo; é compreender, sobretudo que o mundo sempre nos surpreende, jamais corresponde completamente ao que esperamos ou prevemos que ele tem frequentemente mais imaginação do que aquele que filma, e que o cinema é sempre mais forte que os cineastas. Quando acompanhado por um adulto que respeita a emoção de criança, o ato aparentemente minúsculo de rodar um plano envolve não a maravilhosa humildade que foi a dos irmãos Lumière, mas também a sacralidade que uma criança ou adolescente empresta a uma primeira vez levada a sério, tomada como uma experiência inaugural decisiva.

ALAIN BERGALA, Cineasta e crítico de cinema.

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Eu chegaria quase a dizer que o cinema me salvou a vida. Daí eu não poder falar dele intelectualmente. Cheguei a usar a palavra “droga”, antes de ela entrar na moda… Se me lancei no cinema provavelmente é porque na infância, isto é, durante os anos da Ocupação, minha vida não me satisfazia. 1942 é uma data importante para mim: foi quando completei dez anos e comecei a assistir muitos filmes. Dos dez aos dezenove anos, mergulhei de corpo e alma nos filmes. E não consigo analisar isso de maneira distanciada.

FRANÇOIS TRUFFAUT, Cineasta.

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Amo o cinema desde 1902. Tinha oito anos e estava internado numa espécie de prisão de luxo, ornamentada com o nome de colégio. Numa manhã de domingo vimos chegar no locutório um homem do tipo “fotógrafo”, que carregava um estranho equipamento. Era um cinematógrafo. Ele usava uma gravata larga e tinha uma barba pontuda. Ficamos observando-o durante mais de uma hora […]. Mas, as crianças, como os selvagens, habituam-se depressa ao cinema e depois de alguns instantes eu já podia compreender tudo.

JEAN RENOIR, Cineasta.

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Pois existe a regra e existe a exceção. Existe a cultura, que é regra, e existe a exceção, que é a arte. Todos dizem a regra, computadores, t-shirts, televisão, ninguém diz a exceção, isso não se diz. Isso se escreve, Flaubert, Dostoievski, isso se compõe Gershwin, Mozart, isso se pinta Cézanne, Vermeer, isso se filma, Antonioni, Vigo.

JEAN-LUC GODARD, Cineasta.

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[…] uma coisa é certa: é preciso aprender a sair das salas de cinema […] E, para aprender é preciso ir à escola. Não exatamente à escola da vida, mas ao cinema como escola. É assim que Godard e Gorim transformaram o cubo cenográfico em sala de aula; o diálogo do filme em recitação, a voz em off em aula magistral; a filmagem em trabalhos dirigidos; o tema dos filmes em matérias obrigatórias; (“o revisionismo”, “a ideologia”, etc.) e o cineasta em diretor da escola, em monitor, em bedel.

SERGE DANEY, Crítico de cinema.